Notícias
mais notícias »
Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

Entre o furo e a barriga

O título da primeira análise do Observe foi pensado pela acadêmica Mylena Rocha. Ela explica que o furo fato veiculado em primeira mão pode facilmente tornar-se uma barrigada, quando há informações erradas ou desencontradas. Isto aconteceu com dois episódios analisados pelo projeto de Pesquisa, Ensino e Extensão que vamos apresentar agora.

No dia 16 de outubro de 2014 um homem foi encontrado morto no Córrego Segredo, por volta das 7h. As notícias de todos os portais eram imprecisas, inclusive quanto ao nome do córrego. Todas identificaram o local como próximo ao estádio Guanandizinho e apontaram que o nome do córrego era Anhanduí (ou Anhanduizinho). Porém de acordo com o mapa da Rede Hidrográfica de Campo Grande disponível no site da prefeitura (http://www.capital.ms.gov.br/egov/cidadeviva/), naquela região ainda é o Segredo.

Uns destacaram que um motociclista foi quem acionou a polícia, outros sites explicaram que os moradores que efetuaram a ligação aos bombeiros informando sobre o corpo. A pressa condicionou matérias rasas e de poucos parágrafos. A prática observada é de soltar inicialmente uma nota descontextualizada e depois recorrer para o acréscimo de informações. O apelo pode ser explicado pela necessidade do furo, ainda que o leitor não consiga identificar em exato o que se passa, afirmou a acadêmica Luana Campos.

A perícia foi chamada ao local e contou aos jornalistas que não havia sinais de ferimentos no corpo. Porém, nenhum repórter contextualizou que o Instituto Médico e Odontológico Legal demora em média 30 dias para divulgar o laudo apontando as causas da morte.

Ainda em relação às matérias iniciais, com poucas informações, os acadêmicos observaram a falta de detalhes em alguns veículos, como descrever a falta de vestimenta inferior, o tumulto que ocorreu no trânsito próximo ao local devido à curiosidade das pessoas. Furo de quê, se a informação não é completa? Parece que a ideia é ser o primeiro a dar a notícia e não o melhor, disse a acadêmica Thayná Oliveira.

Depois de cerca de duas horas os sites atualizaram as matérias. O patrão, que passava pelo local, parou e identificou o corpo do morto, João Caetano Fernandes Neto. Mas cada veículo deu ao patrão um sobrenome diferente. O que mostra a falta de cuidado na apuração dos repórteres, ressaltou o acadêmico Joaquim Lucas. As notícias publicaram que o homem teria dado emprego ao funcionário há pouco tempo.

Um veículo reportou três meses, outro deu a entender que foi na semana anterior. Todos enfatizaram a fala de que o patrão estaria dando uma chance de recuperação, mas nem todos deixaram claro que o funcionário foi usuário de drogas e com isso o leitor pode ficar com mais dúvidas, apontou Mylena Rocha.

<b> Pouso de emergência </b> - Os estudantes de Jornalismo da UFMS também analisaram as matérias sobre o pouso de um bimotor no Aeroporto Internacional de Campo Grande, em 22 de outubro de 2014. Foram observadas as mesmas características de notas rasas na competição de quem daria o furo sobre a aterrissagem forçada.

As informações preliminares não apontavam a quantidade de tripulantes, os donos do avião, trajeto e se havia algum ferido. Um dos sites ainda chegou a confiar na informação recebida por leitores, via Whatsapp, de que o pouso aconteceu em uma Avenida, ao lado do Aeroporto. A correção da matéria veio minutos mais tarde, admitindo o erro e atribuindo aos colaboradores. Porém a falta de apuração mostra que o jornalista deve agir mais em prol da sociedade, também para que esta dê a devida importância ao trabalho dele, já que informações confusas geram pré-julgamentos e, às vezes, grande impacto na vida da população, disse a acadêmica Larissa Moreti.

Notícias posteriores, mesmo que mais completas, mostravam desencontro de informações entre os sites. Órgãos oficiais divulgaram diferentes números de passageiros no voo, o que também prejudicou o entendimento do leitor. Nenhum jornal apontou a diferenciação, apenas escolheu uma delas. A pressa em publicar na frente da concorrência faz com que jornalistas não se preocupem com a apuração das informações. Não era possível esperar um pouco mais para apenas publicar com mais exatidão sobre o assunto?, questiona a acadêmica Larissa Ferreira.

No decorrer das duas semanas de análises outros materiais imprecisos foram veiculados devido à constante pressa que permeia a profissão. A ânsia do furo já faz parte de um processo jornalístico enraizado, que limita a compreensão do leitor quando a falta de tempo implica em erros. O Observe questiona este procedimento e orienta aos alunos em formação quanto à importância de uma apuração precisa durante as reuniões semanais, mesmo que sejam necessários alguns minutos a mais, por vezes considerados mais preciosos do que a credibilidade aos cibermeios.

Os veículos analisados foram os sites Midiamax, Campo Grande News, G1 MS, Correio do Estado e Estado Online. 

Fonte: Projeto Observe 2014