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Sexta-feira, 08 de Maio de 2015

A mídia e a questão do gênero: pouca informação gera pouco debate

O Dia Internacional da Mulher foi instituído como uma forma de marcar a luta feminina contra a desigualdade entre gêneros, englobando questões trabalhistas e de direitos humanos. É um fato que muito se conquistou desde que Clara Zetkin, membro do Partido Comunista Alemão, propôs a criação de um Dia Internacional da Mulher em 1910. Coisas que atualmente parecem banais não eram garantidas há alguns anos: uma mulher não podia estudar, por exemplo, simplesmente por ser mulher. Porém, também é um fato que a sociedade ainda segue costumes patriarcais. Talvez a conquista de direitos tenha tornado essa concepção nebulosa para as mentes mais fechadas; é difícil para alguns entender que melhorias não significam resoluções definitivas.

É com as mentes fechadas que a imprensa trabalha, ou deveria. Com toda a sua força e alcance, o esperado é que ideias anacrônicas sejam descontruídas para dar lugar a um pensamento contemporâneo que vise um futuro melhor e menos desigual. A partir dessa noção, essa análise pretende discutir como, então, o Dia da Mulher foi retratado em alguns veículos de comunicação de Campo Grande. Para isso, foram observadas matérias em quatro sites de notícias e dois jornais televisivos de emissoras diferentes.
 
As reportagens do Campo Grande News, do MS Notícias e do Correio do Estado flutuam basicamente em torno da mesma ideia de divulgar eventos que aconteceriam na capital em virtude do Dia da Mulher, apresentando sua programação, hora, local e data. Embora alguns desses eventos articulem o debate sobre gênero e desigualdade, como é o caso do Encontro Estadual de Gestoras Municipais de Políticas para Mulheres mencionado na publicação do Campo Grande News, o foco das matérias está contido na promoção dos eventos em si, e não no debate. O mesmo acontece com o informe do MS Notícias: apesar do gancho interessante, que relata o planejamento da semana da mulher no Estabelecimento Penal Feminino Irmã Irma Zorzi, a matéria nem sequer discute a questão do gênero, embora mencione a apresentação de palestras sobre violência doméstica, direitos trabalhistas e conquista de espaço da mulher. As duas matérias do Correio do Estado seguem a mesma direção, uma sobre a semana da mulher realizada no Plenário Júlio Maia, na Assembleia Legislativa, e outra sobre uma exposição de trabalhos artesanais produzidos por mulheres da capital, na Galeria de Vidro.
 
O que ocorre em todas as reportagens é o desperdício de uma oportunidade valiosa de discutir uma questão importantíssima que só tem ganhado força com o movimento feminista, cada vez mais reconhecido nos últimos tempos. Ano após ano, são noticiados casos de violência contra a mulher, feminicídios, etc., e justamente nesse período de março, quando todos estão prestando atenção na mulher como indivíduo por si mesma, e não só mais uma extensão da sociedade, quando surge um dia específico que abarque essas questões e possibilite uma argumentação que traga resultados e mude concepções arcaicas, a mídia, que possui papel fundamental nesse debate, utiliza seus meios para simplesmente divulgar eventos que o incorporem.
 
Diferentemente, o Capital News e os dois telejornais analisados (MS TV e MS Record) contrastam com as representações escolhidas pelas mídias anteriores. Intitulada Todo dia é dia da Mulher, a reportagem especial do Capital News apresenta um dos conteúdos mais adequados, dentre os jornais analisados, em relação ao Dia da Mulher. Foram entrevistadas seis mulheres de diferentes idades, incluindo adolescentes e homens relacionados às entrevistadas, todas contando sobre o seu cotidiano. O fim da reportagem ainda conta com um pequeno trecho explicando o contexto histórico do Dia Internacional da Mulher. O MS TV, apesar de também contar com divulgação de eventos, aproveitou uma matéria para exemplificar a inclusão da mulher em mercados de trabalhos que antes lhe eram negados, como a profissão de eletricista. Entretanto, ao entrevistarem o chefe da única mulher eletricista de determinada empresa, incluíram na reportagem final um comentário sexista feito por ele, que denegriu a qualidade total da mesma: o homem atribuiu a participação da mulher nesse ramo ao fato de que, devido às inovações tecnológicas, o trabalho agora exige mais concentração e menos força. Certamente um inconveniente que não poderia ter ocorrido em um programa especialmente dedicado às mulheres.
 
O MS Record fez um especial ao vivo para representar o Dia da Mulher, com foco na Casa da Mulher inaugurada recentemente em Campo Grande. A reportagem merece destaque, já que passou por vários pontos importantes. Começando com a história do dia especial, apresentou por inteiro ao público a estrutura da Casa da Mulher e todos os recursos nela disponíveis, o que de certa forma acabou ficando um pouco monótono. No entanto, a matéria se distingue ao entrevistar uma mulher vítima de violência doméstica que estava sendo atendida no local naquele momento. A entrevista foi um ponto crucial, já que tornou todas as discussões até então compreendidas aqui mais reais: foi um exemplo fatídico do que ocorre todos os dias com milhares de mulheres pelo mundo.
 
Assim, fica evidente que não se pode contar com a vontade de uma sociedade, que é fechada em torno de suas ideias consolidadas, de sair do conforto de sua residência para se informar sobre as atrocidades que acontecem mundo afora. É, de fato, uma utilidade pública informar a quem quiser saber onde, quando e como ocorrerão esses acontecimentos sociais, mas não se pode deixar de lado os temas importantes. Quem precisa ficar sabendo dos índices de violência, da desigualdade absurda nas questões trabalhistas e do machismo que ocorre todos os dias com as mulheres não está interessado em participar desses eventos. Está em casa, nas ruas e nos locais de trabalho contribuindo para o aumento da discrepância entre os gêneros e perpetuando seu pensamento antiquado. Afinal, não há muito o que se comemorar com festas e programações especiais em um país que ocupa a 7ª posição de maior número de assassinatos de mulheres no mundo em um ranking de 84 nações.
 
Fonte: Larissa Moreti de Lima Ribeiro - acadêmica de Jornalismo da UFMS e pesquisadora do Observe