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Segunda-feira, 11 de Maio de 2015

SOS CULTURA: análise das matérias sobre a ocupação da Fundac
No dia 3 de março de 2015, artistas protestaram na sede da Fundac (Fundação Municipal de Cultura) por melhores investimentos na cultura e pagamentos de projetos que estão atrasados desde o ano passado.
 
Das matérias veiculadas na imprensa campo-grandense e analisadas para o Observe, todas trouxeram em seus títulos o protesto como ocupação, com exceção de uma que tratou o ato como invasão. As duas palavras, obviamente, causam uma denotação diferente; invasão, segundo o dicionário Michaelis é uma entrada violenta e arrogante. Enquanto ocupação é estar em um espaço ou território. O título que contém invasão passa a visão de que o protesto foi de certa forma violento; o que é contradito pelo próprio conteúdo das matérias.
 
Basicamente, todos os veículos mostravam o motivo da manifestação dos artistas: a exigência uma porcentagem ideal de investimento para a cultura e o pagamento de cachês atrasados. Entretanto o enfoque das matérias não foi o mesmo. Entre os dois principais impressos do Estado, por exemplo, um focou apenas na manifestação, com declarações de artistas, não citando nem mesmo a tentativa de contato com alguém da Fundac. Enquanto o outro jornal esquematizou sua matéria como uma espécie de diálogo, com declarações de manifestantes reivindicando e logo após uma declaração da presidente da fundação tentando responder.
 
Na matéria feita pelo suporte televisivo, assim como um dos impressos, foram ouvidos manifestantes e a responsável pela fundação. Nos sites de notícias constam declarações dos artistas e apenas tentativas de contatos sem retorno com a presidente da Fundac.
 
Outro fator interessante nas matérias dos impressos são as fotos utilizadas:
 
·         No jornal Correio do Estado (que fez sua matéria em esquema de diálogo com declarações de ambos os lados), há apenas uma imagem: a foto da presidente da FUNDAC conversando com os manifestantes.
 
·         No jornal O Estado (que deu seu enfoque apenas para o protesto), são três imagens: a principal de dois manifestantes em destaque em segundo plano os cartazes de protesto. Das duas menores uma é de um músico apresentando-se durante a manifestação e a outra com menor destaque, da presidente da fundação conversando com os artista. Esta última traz consigo a legenda: Atual diretora-presidente chegou a conversar com os manifestantes, mas deixou o prédio.  
 
Houve também divergências de apuração dos veículos, pois alguns números estão diferentes nas matérias:
 
·         No Correio do Estado foram divulgados 100 manifestantes e 80 projetos com pagamentos atrasados.
 
·         No O Estado não há número de manifestantes, porém 120 projetos com atraso nos pagamentos foram divulgados.
 
·         Segundo o site Campo Grande News de 50 a 60 pessoas estavam presentes no protesto e 120 projetos estavam com pagamentos atrasados.
 
Houve um erro também quanto à divulgação de valores na Tv Morena e no Correio do Estado (únicos que ouviram a presidente da fundação). A responsável pela FUNDAC disse que foram investimentos 1,36% do orçamento na cultura, percentual que para a Tv Morena representa R$ 13 milhões e para o Correio do Estado R$ 40 milhões.
 
Mesmo alguns veículos tendo seus enfoques só para uma das partes envolvidas, as matérias tiveram uma boa estrutura. Entretanto, existiu uma falta de atenção gritante na apuração das informações, com tantas diferenças na divulgação dos mesmos dados. As matérias dos sites não tem aprofundamento no fato; entre os jornais impressos a polarização de um deles é evidente, inclusive na escolha das fotos e legendas. A reportagem da TV ouviu os dois lados do conflito, porém dedicou maior parte do tempo ao protesto.
 
O fato teve relevância regional e mereceu a cobertura, mas levando em conta o levantamento e apuração faltou responsabilidade com o leitor e o compromisso de fazer um jornalismo de qualidade, transparente com credibilidade e o mais importante buscando a imparcialidade.
 
Veículos analisados:
O Estado (edição 04/03/2015)
Correio do Estado (edição 04/03/2015)
Campo Grande News (matérias 03/03/2015)
MS Notícias (matéria 03/03/2015)
G1 MS/ TV Morena (matéria 03/03/2015)
Fonte: Michael Franco - acadêmico de Jornalismo da UFMS e pesquisador do Observe