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Terça-feira, 28 de Julho de 2015

E qual é a verdade, afinal?

 Nos dias 10, 11 e 12 de junho, foram veiculadas várias matérias sobre a prisão de nove cuidadores de carro, mais conhecidos como flanelinhas, na Avenida Afonso Pena. A prisão aconteceu no início da noite do dia 10, em frente à Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e próximo a uma faculdade particular. Os veículos analisados são MSTV 1ª Edição, Bom Dia MS, G1 Mato Grosso do Sul, Campo Grande News, Midiamax, O Estado de Mato Grosso do Sul, O Estado Online e Correio do Estado.

O MSTV 1ª Edição exibiu uma reportagem mais completa, abordando outros pontos além do fato em si. A reportagem tem cerca de dez minutos, tempo significativo para o telejornalismo, e incluiu a participação de telespectadores por meio do aplicativo Bem na Hora e uma entrevista ao vivo no estúdio. A informação veiculada é de que os frequentadores da igreja e os estudantes da faculdade fizeram denúncias à Polícia Militar de que os flanelinhas estariam ameaçando quem estacionasse e não pagasse o valor cobrado. Os nove cuidadores de carro detidos foram flagrados pela Polícia Militar intimidando os motoristas. Após relatar o ocorrido, a reportagem continua com um link ao vivo, informando sobre a atuação que a Polícia Militar vai realizar pelos vários bairros da cidade com concentração de flanelinhas, principalmente na região central.
Há desencontro de informações quando a Tenente da Polícia Militar entrevistada fala sobre irregularidade dos cuidadores de carros e, em seguida, a âncora do jornal fala que é uma profissão com registro há 40 anos, regulamentada por Lei Federal e que possui suas regras trabalhistas. As informações sobre as regras a serem seguidas pelos profissionais são vagas e deixam várias dúvidas, inclusive uma delas levantada pela entrevistada no estúdio, sobre quem decide o valor de cobrança e onde eles podem trabalhar. A âncora do jornal diz que houve tentativa de contato com a Prefeitura sobre a fiscalização desses guardadores de carro, mas sem obtenção de respostas.
No início, a reportagem exibe a imagem de um flanelinha que, segundo o repórter, percebeu as câmeras e foi embora. A imagem é bastante tendenciosa pois não mostra com clareza o que aconteceu: sem o off com as informações do repórter, não saberíamos se o homem estava fugindo ou não, e por qual motivo. A reportagem não exibiu o lado de nenhum dos cuidadores de carro, tanto os detidos na operação quanto outros que atuam nos vários pontos da cidade. Não há relatos de que houve qualquer tentativa de contato.
A reportagem do Bom Dia MS é extremamente parecida com a do MSTV 1ª Edição, apesar do menor tempo. A falta de contato com o outro lado, a imagem do flanelinha fugindo e as informações vagas sobre a regulamentação da profissão são elementos comuns em ambas as reportagens. Um detalhe interessante explorado pelo Bom Dia MS é o comentário de um dos âncoras: Claro que tem alguns que são registrados e trabalham com tudo certinho, mas como outros não são, acabam ganhando a fama. Foi uma tentativa de não deixar a generalização tomar conta da reportagem, ainda mais quando não houve contato com essas fontes.
A matéria publicada no G1 Mato Grosso do Sul é também muito parecida com as reportagens veiculadas no MSTV 1ª Edição e no Bom Dia MS. As informações são basicamente as mesmas. A matéria também fala sobre a regulamentação da profissão de guardador de carro, mas, novamente, as informações são confusas e apenas mostram como funciona o registro e não as regras de atuação. Não há contato com os flanelinhas ou relato de tentativa de contato. Diferente das reportagens exibidas telejornais, a matéria informa que os flanelinhas detidos vão responder por exercício ilegal da profissão.
No site Campo Grande News, logo no início da matéria há as informações de que nenhum dos flanelinhas detidos possuía registro profissional para exercer a atividade. A matéria exibe nome e idade dos detidos e, novamente, nenhum contato ou relato de tentativa. De acordo com as testemunhas, os autores estavam molestando e perturbando a tranquilidade dos motoristas. É uma matéria pequena, com poucas informações, e não há explicações de como funciona a regulamentação da profissão. A frase nenhum flanelinha detido possuía registro profissional para exercer a atividade apenas dá a entender que é preciso registro, mas não há mais informações. No entanto, o veículo publicou outra matéria no mesmo dia com o título Veja em qual situação você pode denunciar um flanelinha à Polícia. A matéria dá maior profundidade ao assunto, tomando como gancho a prisão dos nove flanelinhas. O desencontro de informações aparece mais uma vez. Coloca-se que a detenção foi justificada como exercício ilegal de profissão e perturbação da tranquilidade, apesar de não haver uma lei que regulamente a atividade. Segundo o site G1 Mato Grosso do Sul e os telejornais Bom Dia MS e MSTV 1ª Edição, há, sim, uma lei e também há afirmação de que cuidador de carro é uma profissão regulamentada. No site Campo Grande News, as informações sobre haver ou não uma lei são extremamente confusas. No parágrafo seguinte a afirmação de não haver uma lei que regulamente a atividade, consta que não há regulamentação municipal sobre a função, o que impede punições mais severas.
O que existe é a Lei 6.242/1975, o exercício do trabalho de guardador e lavador autônomo de veículos automotores, em todo o território nacional, depende de registro na Delegacia Regional do Trabalho competente. O que permite o desempenho da atividade com registro, mas não significa que ela seja regulamentada como profissão. Afinal, existe ou não existe uma lei? É ou não é regulamentada como profissão?
Isso significa que o exercício da função sem registro não é crime. Mesmo assim, uma pessoa pode denunciar essas pessoas por extorsão, por exemplo, quando é obrigada a dar dinheiro sob ameaça de danos aos veículos caso não pague ao flanelinha é outro parágrafo da matéria que pode deixar dúvidas nos leitores. Se o exercício da função sem registro não é crime, por que foi noticiado pelo Campo Grande News e outros veículos que os flanelinhas detidos vão responder à Justiça por exercício ilegal da profissão? A matéria no site Midiamax ainda detalha que a prisão foi pelo fato de nenhum deles ter cadastro no Ministério do Trabalho, que seria o registro profissional. Por fim, essa segunda matéria do Campo Grande News é a única que estabeleceu contato com um flanelinha, ainda que com uma pequena declaração.
O site Midiamax prioriza o fato de que os cuidadores de carro foram presos por exercício ilegal da profissão. A frase também foi constatado que os autores estariam constrangendo os frequentadores da igreja e universitários da faculdade está no final da matéria e é a única parte que faz relação às denúncias dos motoristas. Após análise de quatro veículos, é importante ressaltar como a forma que as informações são colocadas na matéria causam diferentes interpretações, além dos termos usados. As quatro primeiras matérias dão destaque para o fato de que os flanelinhas estavam perturbando e ameaçando os frequentadores da igreja e estudantes que fizeram as denúncias. A matéria no Midiamax, no entanto, além de dar a entender de que esse não foi o motivo principal das prisões, utilizam o verbo constranger, que tem a conotação bem diferente de ameaçar. A principal informação é que os nove flanelinhas foram presos por causa de uma abordagem decorrente de operação conjunta da Polícia Militar com o Exército Brasileiro. Não há explicações de como funciona o registro da profissão, nem contato com os guardadores de carro.
As matérias publicadas pelo Estado de Mato Grosso do Sul são as mesmas no impresso e na versão online. Há, novamente, desencontro de informações. A matéria classifica os flanelinhas detidos como suspeitos. Se eles foram detidos em flagrante, já não são mais suspeitos. Além disso, é a única matéria em que os flanelinhas são acusados de danificar os carros. Nos cinco veículos analisados, a acusação é de perturbação da tranquilidade apesar das variações dos termos utilizados e exercício ilegal da profissão. É confuso que, no final da mesma matéria, informa-se que os suspeitos foram autuados por exercício ilegal de profissão e perturbação da tranquilidade. E a danificação dos carros, aconteceu ou não? Se sim, por que não foram autuados por isso?
O último veículo analisado foi o site do Correio de Estado, que publicou uma matéria direta, porém com informações repetitivas. No primeiro parágrafo explica-se porque os flanelinhas foram detidos: Eles são suspeitos de molestar e perturbar a tranquilidade de acadêmicos e fiéis da Capital a questão sobre o uso da palavra suspeitos aparece novamente. Em seguida, no quarto parágrafo: A PM constatou ainda que as pessoas detidas também são acusadas de constranger as pessoas que frequentam a Igreja Católica e os acadêmicos da Facsul. Além de molestá-las, eles perturbam a tranquilidade das vítimas. Além das informações já terem sido colocadas no começo da matéria, a última frase é redundante.
Analisados, por fim, nove matérias em oito veículos de diferentes plataformas, conclui-se que há um grande desencontro de informações sobre os fatos noticiados. As matérias deixam dúvidas sobre certos pontos que foram levantados e não foram devidamente explicados, e até mesmo fazem uso de imagens e termos que podem levar a diferentes interpretações, colocando em questão qual é a verdadeira informação. A apuração precisa é uma característica que traz credibilidade jornalística e, muitas vezes, é colocada em segundo plano pela pressa em publicar a notícia. Quando não há certeza sobre alguma informação a ser veiculada, é importante que isso fique claro para o leitor, para não levantar dúvidas sobre sua veracidade. Outra questão muito importante a se ressaltar é a falta de contato com as fontes do outro lado da história. O MSTV 1ª Edição dedicou dez minutos para a reportagem e nenhum flanelinha é entrevistado nesse meio tempo. Mesmo que não se consiga uma entrevista, é importante informar ao leitor e telespectador que a tentativa foi feita. Além disso, deve-se prestar atenção em alguns detalhes de fala e texto para que não ocorra a generalização e perpetuação de estereótipos.
Fonte: Bruna Müller Fioroni - acadêmica de Jornalismo da UFMS. Análise apresentada para a disciplina Crítica de Mídia.